terça-feira, 28 de junho de 2016

SÉRGIO MANGIULLO - O AMOR NÃO CABIA NA KOMBI

SÉRGIO MANGIULLO
O Juventus desperta toda a simpatia dos paulistanos graças a sua tradição, mais não é fácil torcer por um time que luta pela sobrevivência nas últimas divisões do futebol paulista. É nessas condições adversas que surge o herói grená: Sério Mangiullo.
        Mangiullo nasceu em 17 de outubro de 1951. Seu pai era juventino de primeira hora e levava o garoto todo domingo ao estádio da rua Javari. Sérgio pertenceu à geração que viu o futebol brasileiro se centralizar em um clube, o Santos, e em um homem, Pelé. De tanto ver o peixe ganhar do Juventus, Serjão virou fanático - pelo Juventus. Aos domingos, vestia a camisa grená e sua mulher, Teresinha, era tomada pelo ciúme: "Você pode ficar só com o futebol".
        Com seu sotaque italiano, curtindo pelos anos da Mooca, criou a torcida organizada Ju-Jovem. Começou muito bem. No dia 6 de setembro de 1981, foi até o Palestra Itália esticar a faixa oficial da torcida nas arquibancadas. O Juventus detonou o Corinthians por 3 x 0, com show de Atalíba.
        A torcida chegou a ter 785 torcedores. Mas se afundou com o clube. Em 1988 a Ju-Jovem cabia numa Kombi. Onde o Moleque jogasse, 20 torcedores fiéis se espremiam na perua e cruzavam as estradas paulistas. Mangiullo era o motorista.
        E lá ia Serjão com seu cabelo jovem guarda (que lhe rendeu o apelido de Zagarias) até o estádio Conde Rodolfo Crespi. Deixava a única bandeira grená da torcida, com um grande "J" no meio, com a criançada e ia para trás do gol xingar o goleiro do outro time ("daí ele treme e o Juventus marca"). Vendia rifas na saída para sustentar as viagens pelo interior.
       O jornalista Rodrigo Carvalho Leme descreve uma tarde ao lado de Mangiullo a caminho de um jogo contra o Fluminense, em 1998. É cena de comédia italiana: "Da rua Javari até Osasco ele soltou um milhão de 'nego', 'belo', 'orra'. Chegamos em Osasco. Fim de jogo, 1 x 0 para o Juventus. O Serjão se altera de uma hora para outra: 'vamo embora que os caras do Fluminense querem pegar a gente!' Eu via a torcida do Fluminense saindo tranquilamente. Em nome da diversão, entrei no clima. Eu vi velhinhos, crianças, todo mundo correndo loucamente para o ônibus. E o motorista ainda esperou algumas pessoas entrarem antes de dar partida tranquilamente. Parecia estar acostumado com a paranoia da saída de jogo".
        Com o tempo, até a Kombi se esvaziou. E Sergio se tornou o "presidente da torcida de um homem só". O que poderia ser motivo de gozação se transformou nu símbolo de resiliência e fidelidade. Taxista de profissão, não desistia nunca.
         No domingo, 28 de abriu de 2013, Sergio Mangiullo morreu vítima de AVC. Com ele se foi a ideia de um futebol romântico. do tempo em que todo o amor a um time cabia numa Kombi.

Por Dagomir Marquezi - Revista Placar - Edição Nº 1.380 - Julho de 2013



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